|
O papel do pai na família que se transforma
Foi com muito prazer que aceitei o convite do Frei Natalino para dizer
duas palavras em ocasião da Semana Nacional da Família. Todos nós
sabemos o quanto a família hoje se encontra em dificuldades e sob ataque
de todas as partes. O tema é, portanto, de grande importância.
Antes de entrar propriamente no assunto, gostaria de dizer que fiquei um
tanto perplexo em relação ao título dado a esse encontro. Não tenho a
intenção, obviamente, de colocar em dúvida a importância da fraternidade e
da amizade no âmbito familiar. O que me pergunto é se, nos dias de hoje,
falar de fraternidade no interno da família seja útil ou se, ao contrário,
possa confundir ainda mais as coisas, ao invés de esclarecê-las
Talvez o que a família de hoje necessita não é tanto de fraternidade, que
apresenta o risco de fazer com todos pareçam iguais, confundindo os papéis,
mas exatamente de discutir quais são esses papéis dentro da família.
Inspirado também pela bela homilia de Frei Natalino no domingo passado,
dia dos Pais, gostaria de discutir brevemente em seguida sobre o papel do
pai em uma família e em uma sociedade que estão sendo submetidas a uma
grande transformação.
A crise da figura paterna
Que a figura paterna esteja em crise é visível aos olhos de todos. Cada
vez mais se fala do “pai ausente”, mas pouco se diz ou se questiona sobre
os motivos que levaram a essa ausência, limitando-se a apontar o dedo
contra a irresponsabilidade de alguns pais que, de modo injustificado, com
um comportamento certamente condenável, abandonam a mulher, e, sobretudo,
os filhos.
Mas esse é somente um dos aspectos. Muitas vezes os pais estão ausentes da
família por motivos alheios à própria vontade. Penso no caso do pai
expulso da família: na Itália, cerca de 75% das separações é pedida pela
mulher, sem que haja a necessidade de um motivo concreto para a separação;
e em muitos desses casos os pais além de ficarem privados da casa em que
habitavam ficam também privados da possibilidade de freqüentar os filhos.
Penso também no caso do pai que deve se separar da família por motivo de
trabalho, ao pai vítima de um constante ataque por parte da televisão e
dos jornais, sem citar uma legislação que há algumas décadas funciona
apenas em uma direção. Sei que é muito pouco “politicamente correto” dizer
essas coisas, mas eu as digo porque são reais.
Pensem bem: nos programas e comerciais de televisão ou nos artigos de
jornal o pai é apresentado como um idiota, incapaz de ser autônomo, sem
autoridade, ridículo, quando não é um estuprador ou um criminoso.
E já pensaram em quantos termos ligados à função paterna assumiram hoje
uma conotação fortemente negativa: pai-patrão, pai ausente, patriarcado,
paternalismo, etc.
Estamos, em suma, diante de uma contradição: por um lado se recriminam os
pais (e como disse antes, muitas vezes com razão): são desinteressados,
têm pouca sensibilidade, empatia e autoridade com os filhos. Por outro
lado, porém, são anos que se teoriza sobre a não necessidade do pai, até
mesmo a nível reprodutivo, considerando que o papel da mãe e do pai podem
ser trocados entre si: a ausência, portanto, de uma função específica do
pai, que não se sabe bem porque deveria existir e que coisa poderia fazer
que a mãe não seja capaz de fazer. Porém, não foi sempre assim...
As causas da crise
Não conheço a fundo a realidade brasileira; portanto citarei exemplos do
que ocorre na realidade italiana e européia, além da societade americana,
que há muito tempo estuda o assunto.
Embora seja impossível percorrer aqui todas as etapas que resultaram na
situação atual, podemos, porém, com uma certa facilidade, individuar as
origens desse progressivo esvaziamento da figura paterna e que residem
naquilo que foi chamado “processo de secularização”.
Dieter Lenzen afirma, em um livro de 1994 ( Em busca do pai - Alla ricerca
del Padre, Red, 2000) que o momento da mudança ocorreu com a Reforma
Protestante, quando pela primeira vez na história se introduz uma
separação radical entre o Reino de Deus e o Reino da Terra, conferindo a
esse último de maneira exclusiva a experiência matrimonial e familiar.
Claudio Risé, jornalista e psicoterapeuta que há muitos anos estuda na
Itália a questão masculina e paterna, (um livro dele, “Ser homens: a
virilidade em um mundo feminilizado”, também foi publicado no Brasil pela
Editora Lyra), afirma que, a partir dessa separação entre Reino de Deus
e o Reino da Terra, a imagem do pai como “representante social da
lei do Pai Divino” e de “Guardião da família através de uma ordem natural
e simbólica divina” desapareceu (Risè, Il padre l’assente inaccettabile.
San Paolo 2003). E’ a partir desse momento que o papel e a função do pai
começam a perder sentido.
As funções pedagógicas e educativas não são mais reconhecidas como
próprias do pai, mas se tornam funções do âmbito materno. Em paralelo a
isso, agem as exigências do processo produtivo que, como lembrava Frei
Natalino durante a homilia, limitam o pai a uma função estritamente
econômica. Em pouco tempo também a mãe perde essas funções que passam a
ser exercidas por uma série de atores e instituições, onde a presença da
figura masculina simplesmente desaparece (escola, organizações de lazer,
etc).
Um outro aspecto ligado à época contemporânea é a dramática desvalorização
do trabalho manual.
Em um romance de David Herbert Lawrence (O arco-iris – L’Arcobaleno.
Mondadori 1991) se fala desse pai minerador que volta para casa sujo e
cansado depois do dia de trabalho duro. O pai tira a roupa para tomar
banho em uma tina e o filho olha admirado o corpo forte, musculoso e sujo
da fadiga do trabalho. Nesse momento a mãe fala com o filho dizendo-lhe:
“Olha o seu pai, olha como está sujo...você não será come ele, você vai
fazer um trabalho limpo, você vai ser um funcionário...” Também desse modo
se liquida com a figura do pai.
O processo de secularização dá início a marginalização do pai. Em seguida,
a afirmação da sociedade de consumo – completamente centrada na satisfação
de necessidades artificialmente induzidas – continua a obra. As novas
ideologias, que nascem de exigências e situações mais que legítimas mas
que causam um evidente efeito destrutivo sobre a família, estão
completando a obra. Estou falando do feminismo.
Vamos pensar nas várias leis sobre o divórcio, feitas para resolverem
situações insustentáveis mas que foram usadas para satisfazer interesses
corporativistas e econômicos, se transformando em lucrosas fábricas de
infelicidade, trabalhando sistematicamente contra os pais, tirando deles a
possibilidade de manter uma relação psíquica, concreta e quotidiana com os
filhos.
Pensemos sobretudo nas várias leis sobre o aborto. Em nome do direito à
auto-determinação das mulheres se eliminou completamente o pai de qualquer
decisão em mérito ao processo reprodutivo da espécie. Na Itália a lei 194,
que introduziu o aborto, permite que o pai legítimo, legalmente casado,
possa não ser informado da decisão da esposa de abortar o filho que ele
ajudou a conceber. E que tipo de autoridade poderá ter um pai sobre os
futuros filhos em uma sociedade que retirou dele até a possibilidade de se
pronunciar sobre esse aspecto tão crucial do próprio destino humano?
A função do pai
Pai e mãe, são ambas figuras essenciais mas não intercambiáveis. Ambos
exercem sobre os filhos funções materiais, simbólicas e psíquicas
distintas e que devem ser preservadas.
A psicologia nos ensinou que nos primeiros anos de vida da criança ela
vive uma situação quase simbiótica com a mãe; precisa dela para ter um
desenvolvimento físico, mas sobretudo psíquico, saudável É a mãe que o
leva dentro de si, que lhe dá a luz, o amamenta, que o acude e que lhe
ensina uma coisa que não é banal: lhe ensina o que é ser amado e, como
conseqüência, o ensina no futuro a receber e dar amor. O pai nessa fase
não é igualmente importante, embora desenvolva uma série de funções
cruciais, sobre as quais não irei falar no momento.
O pai se torna indispensável no momento no qual se torna necessário
interromper essa fusão entre a mãe e o filho (ou filha), para
introduzí-los – de maneira diferente – no mundo e na vida social. Em tal
sentido podemos dizer que o pai é o portador da primeira ferida, desse
corte, certamente doloroso, mas indispensável para o crescimento dos
filhos e para inseri-los na sociedade. É esse o papel essencial do pai, o
qual a mãe não pode exercer; e é, ao mesmo tempo, uma função simbólica e
concreta, que todas as sociedades previram, elaborando ritos de iniciação
complexos, nos quais uma ferida, leve mas física (a quebra de um dente, um
corte na pele, etc) sempre foi feita para que se desenvolvesse a
capacidade de suportar futuras feridas – não somente físicas – que de
certo a vida lhes causará.
A capacidade de dizer NÃO, de estabelecer e fazer respeitar as regras -
justas para si e para os outros- de deixar que o filho cresça, que procure
a própria estrada e, uma vez achada, abandone a casa familiar para
segui-la, mesmo quando essa estrada é muito diferente daquela que os pais
imaginavam para o filho; tudo isso faz parte da função paterna. E, do
mesmo modo, a capacidade de acolher o filho quando, como às vezes acontece,
esse erra mas decide pela reconciliação com a família de origem, como
admiravelmente contado na parábola do filho pródigo.
As consequências
da ausência do pai
Hoje nós estamos percebendo que a teorizada sociedade sem pai não é o
paraíso sem violência e de paz que se esperava.
O aumento das separações e dos divórcios, a afirmação de uma cultura
fortemente anti-paterna, o desenvolvimento de técnicas de engenharia
genética que tendem a excluir o pai do processo reprodutivo estão
favorecendo o surgimento de um pequeno exército de jovens que crescem com
uma relação extremamente lábil com o pai e que, como dissemos antes, são
introduzidos na vida social pelas mães ou por outras figuras femininas.
Mas mesmo a mãe mais atenta e cosciente da importância da
complementariedade dos papéis dos pais na construção da identidade do
filho, nada poderá fazer com relação à transmissão do patrimônio
instintual, da cultura material e simbólica própria do sexo masculino,
pelo simples motivo que ela não os possui. Tal fato determina uma
fragilização da identidade masculina que tem como efeito não apenas a
produção de infelicidade, também para as mulheres, mas é que fonte de
tremendas patologias sociais.
A ausência do pai é fonte de patologias e distúrbios sociais gravissimos.
Infelizmente na Itália – e creio também no Brasil – faltam estatísticas
que associem a ausência do pai à manifestação de fenômenos de desvios e
degrado social.
Nos Estados Unidos onde , ao contrário, esse fenômeno vem sendo estudo há
muitos anos e existe um termo especifico para representar a situação dos
filhos separados dos pais: Fatherless, que significa "sem pai" .
Nos USA o problema se tornou explosivo. Já em 1995, o ex-presidente Bill
Clinton, discursando na Universidade do Texas sobre a discriminação racial,
no final do seu discurso afirmou: "O maior problema social na nossa
sociedade poder ser considerado o aumento da ausência do pai das casas de
seus filhos porque essa ausência tem consequências sobre muitos outros
problemas sociais".
Atualmente cerca de 50% das crianças americanas não vivem com o pai
biológico.
Dados estatísticos oficiais nos dizem que as consequências desta separação
são dramáticas:
· 63% dos jovens que se matam, se suicídam, vêm de famílias sem pai (U.S.
D.H.H.S., Bureau of the Census);
· 90% de todos os meninos e meninas de rua (estamos falando dos Estados
Unidos, não do Brasil) vêm de famílias sem pai;
· 85% de todas crianças com distúrbios do comportamento são originadas de
famílias sem pai (Center for Diseases Control);
· 80% dos estupradores vêm de famílias sem pai (Criminal Justice and
Behavior, Vol. 14, p. 403-26, 1978!!);
· 71% das crianças que abandonam a escola vêm de famílias sem pai (National
Principals Association Report on the State of High Schools);
· 75% dos adolescentes atendidos nos Centros antidroga (chemical abuse
centers) vem de casas sem pai (Rainbows for all God's Children);
· 80% dos jovens non centros correcionais vem de casas sem pai (U.S. Dept.
of Justice, Special Report, Sept. 1988);
· 85% dos jovens presos cresceu em casas sem pai (Fulton Co. jail
population, Texas Dept. of Corrections 1992).
· 69% das crianças abusadas sexualmente vivem em casas onde o pai nao é
presente.
Afirma um caro amigo, Armando Ermini, que há anos se ocupa comigo da
questão: “A incapacidade de suportar a perda ou a proibição, a renúncia
consciente em vista de projetos mais amplos (em favor da satisfação súbita
da necessidade, que tem que ser satisfeita a qualquer custo), a
dificuldade em se relacionar com as regras e com a lei, o oscilar contínuo
entre a submissão sem condições e a explosão de uma violência e de uma
agressividade sem controle e sem sentido, até contra si mesmos, são todos
sintomas patológicos de uma pessoa que sofreu a falta da presença e da
orientação, afetuosa e severa, do pai. Mais em geral, também quando as
patologias não se traduzem em crimes, podemos observar uma perda de
vitalidade adulta, do prazer da autonomia, do gosto pelo desafio, que se
manifesta, por exemplo, com o ficar o mais tempo possível na casa dos pais,
ou até em um preocupante aumento da esterilidade: quase 40% dos homens
ocidentais não podem mais fecundar”.
(http://www.archiviomaschiselvatici.com/padre/conferenza.htm).
Inverter a tendência
Acredito que as reflexões e os dados acima expostos sejam suficientes para
afirmar com força a necessidade de uma inversão de tendência. Esta
inversâo deverá se refletir em uma tomada de consciência da importância
social da paternidade e em uma legislação que valorize a figura paterna,
ao invés de contribuir para a sua liquidação. Mas será necessária, antes
de mais nada, uma maior conscientização dos pais, uma maior participação
deles no crescimento dos filhos dentro da família e na sociedade. Não se
trata de um direito a ser reinvidicado mas sim de um dever a ser cumprido
pelos pais, porque a partir desse empenho dependerá a felicidade das
futuras gerações.
Velhas imagens para um novo pai
Muitas são as figuras paternas positivas que a tradição nos oferece e que
ainda podemos utilizar. Gostaria de lembrar duas delas.
A primeira é representada pelo gesto de Heitor, descrito no poema Iliade,
de Homero; aquele gesto que muitos pais, talvez inconscientemente mas por
isto ainda mais significativamente, fizeram durante milhares de anos, isto
é, lançar para o alto o filho. É um gesto que mais uma vez nos mostra como
as expressões de amor materno e paterno, ambos indispensáveis, são todavia
diferentes.
A mãe pega no colo o filho, o abraça e, com amor, o protege.
O pai pega o filho, o levanta e, com amor, o lança para o alto, em direção
ao céu. É um gesto essencialmente masculino, que talvez represente a
essência da paternidade. Citando mais uma vez Armando Ermini: “Uma linha
vertical da terra ao céu, que porém não se interrompe, simbolizando a
união entre a matéria e o espírito”.
Mas a imagem que particularmente amo é a de um Santo da tradição católica
que, embora não seja reconhecido oficialmente, é cultuado na Europa e no
também no Brasil. Refiro-me a San Cristoforo – São Cristovão, cuja
história vocês bem conhecem.
Cristovão era um jovem que, arrependido da vida não exatamente exemplar
que tinha tido, decide de colocá-la a serviço dos outros, ajudando-os a
atravessar um rio de águas turbulentas.
Um dia aparece um menino que lhe pede para ser levado para a outra margem
do rio. O bom Cristóvão o coloca nos ombros e, leve como é, começa a
atravessar o rio tranquilamente. À medida que avança, o menino se torna
cada vez mais pesado, ao ponto que Cristovão acha que não vai aguentar,
que vai afogar. Uma vez alcançada a margem, coloca o menino no chão e diz:
Caramba menino, à medida que atravessava o rio você se tornava cada vez
mais pesado, parecia a um certo momento de carregar o peso do mundo nas
costas”. O menino, que era Jesus, respondeu “Na verdade você carregou nas
costas o peso do mundo”.
Cristovão assume a tarefa de levar o menino de uma margem à outra, de uma
vida para a outra vida. Assume a responsabilidade, arrisca a própria vida
por isso e desse modo descobre o sacro que existe em cada criança, em cada
vida; o sacro que existe na passagem da infância à vida adulta e, por fim,
na própria missão de homem.
Enfim, com essa imagem, que nos lembra fortemente outra função essencial
que eu vejo para os pais de hoje, ou seja, aquela de ser capaz de uma
paternidade social para com as crianças que ficaram privadas, por
diferentes motivos, da presença do próprio pai, gostaria de terminar essa
minha reflexão agradecendo a todos pela atenção.
Eugenio Pelizzari, Minas Novas, 19 de agosto de 2006
IL RUOLO DEL PADRE NELLA FAMIGLIA CHE CAMBIA
È con grande piacere che ho accolto l’invito di Frei Natalino ad offrirvi
questa comunicazione in occasione della settimana nazionale della
famiglia. Sappiamo tutti quanto la famiglia oggi sia in difficoltà e
sotto attacco di forze disgreganti. Il tema è dunque molto importante.
Per entrare subito nel tema , devo però dire che ho qualche perplessità
sul titolo dato a questo appuntamento. Non voglio naturalmente mettere in
discussione l’importanza della fraternità e dell’amicizia in ambito
familiare. Quello che mi e vi chiedo è se, di questi tempi, impostare il
discorso sul tema della famiglia in termini di fraternità sia utile o se,
al contrario, non possa contribuire a creare ulteriore confusione, invece
che a favorire maggiore chiarezza.
Forse quello di cui si sente bisogno nella famiglia di oggi non è tanto
della fratellanza, che rischia di rendere tutti uguali confondendo i
ruoli, ma di trovare il tempo per riflettere appunto su questi ruoli, che
indubbiamente stanno cambiando. Sollecitato anche dalla mirabile omelia di
Frei Natalino, di Domenica 13, “Festa del papà”, vorrei soffermarmi
brevemente, qui di seguito, sul ruolo del padre all’interno di una
famiglia e di una società, come quella attuale, in profonda
trasformazione.
La crisi della figura paterna
Che la figura paterna sia in crisi è sotto gli occhi di tutti. Si parla
sempre più di “padre assente”, ma poco si dice e si indaga sui motivi che
hanno portato a questa assenza, limitandosi per lo più a puntare il dito
contro l’irresponsabilità di alcuni padri che del tutto
ingiustificatamente, con un atteggiamento certo da biasimare, abbandonano
la moglie e, soprattutto, i figli.
Questo però è solo uno degli aspetti all’origine del problema. Molte volte
il padre è infatti assente anche per motivi che poco hanno a che fare con
la sua volontà. Penso al padre ”espulso” dalla famiglia: in Italia in
circa il 75% dei casi la separazione è richiesta dalla moglie, senza che
ci sia alcun motivo concreto, alcuna mancanza o colpa commessa dal padre,
che si vede privato, oltre che della casa, della possibilità di
frequentare i propri figli; penso poi al padre che deve allontanarsi
troppo spesso per lavoro, al padre vittima di un costante attacco da parte
della televisioni e dei giornali, nonché di una legislazione da alcuni
decenni a senso unico. E’ molto poco politicamente corretto dire
queste cose, ma dobbiamo segnalarle “nella loro verità”.
Pensateci bene: non esiste trasmissione televisiva, pubblicità, o articolo
di giornale in cui il padre non sia presentato sostanzialmente come uno
stupido, incapace di autonomia, privo di autorità, ridicolo, quando non
stupratore o criminale... E pensate a quante espressioni, legate alla
funzione paterna, hanno finito con l’assumere oggi connotazioni o giudizi
di valore fortemente negativi: padre-padrone, padre assente, patriarcato,
paternalismo...
Siamo insomma di fronte ad una contraddizione. Da un lato si rimproverano
ai padri – come dicevo, spesso a ragione – disimpegno, assenza, poca
sensibilità ed empatia verso i figli, scarsa autorevolezza. Dall’altro
lato però, sono anni che si teorizza la non necessità del padre –
oggi anche e addirittura a livello riproduttivo - l’intercambiabilità dei
ruoli materno e paterno, e la mancanza, dunque, di un “funzione specifica”
del padre, figura che non si capisce bene perché ci dovrebbe essere e cosa
dovrebbe fare che non sia in grado di fare la madre. Eppure non è sempre
stato così.
Le cause della crisi
Non conosco a fondo la realtà brasiliana su questo tema; non posso dunque
che far riferimento alla realtà italiana ed europea, nonché a quella
americana, da decenni ben documentata.
Se è impossibile ripercorrere qui tutte le tappe che hanno portato alla
situazione attuale, possiamo però con una certa facilità individuare le
origini di questo progressivo svuotamento della figura paterna e che
risiedono in quello che è stato chiamato il “processo di
secolarizzazione”. Dieter Lenzen sostiene, in un libro del 1994 (Alla
ricerca del Padre, Laterza) che il punto di svolta, in questo processo
di annichilimento del padre, si è verificato con la Riforma Protestante,
che operò per la prima volta nella storia, una separazione netta tra
Regno di Dio e Regno del Mondo, e la assegnazione in maniera esclusiva
a quest’ultimo dell’esperienza matrimoniale e familiare.
Claudio Risé, studioso e psicoterapeuta che si occupa da anni in Italia
della “questione maschile e paterna” (un suo libro “Essere uomini”, Red,
2000, è stato tradotto anche in Brasile), sostiene che con questa
separazione sia venuta meno anche l’immagine del padre come “rappresentante
sociale della legge del Padre Divino” nonché quella di “custode
familiare per conto dell’ordine naturale e simbolico divino” (C. Risè,
Il padre, l’assente inaccettabile, San Paolo, 2003). È a partire da
questo momento che, secondo lo studioso italiano, il ruolo e la funzione
del padre cominciano a perdere di senso. Le funzioni pedagogiche ed
educative non vengono più riconosciute come proprie del padre, ma
diventano proprie dell’ambito materno o istituzionale (si pensi alla
scomparsa della figura in sé paterna del maestro e la sua sostituzione
attraverso l’istituzione scuola). Parallelamente a ciò agiscono le
esigenze del processo produttivo che, come ricordava anche Frei Natalino,
rinchiudono il padre dentro una funzione prettamente economica o,
esclusivamente, di provider. Del resto, ai nostri giorni, anche la
madre ormai viene espropriata delle sue specifiche funzioni che vengono
ora svolte da tutta una serie di figure ed istituzioni dove il principio
maschile semplicemente scompare (scuola, organizzazioni del tempo libero,
ecc.).
Un altro fenomeno, riguardante lo svilimento della paternità, connesso
all’affermarsi delle caratteristiche economiche e produttive dell’epoca
contemporanea, è la drammatica svalorizzazione del lavoro manuale. In un
romanzo di Lawrence (L’arcobaleno, Mondadori, 1991) si racconta di
un padre minatore che torna a casa sporco e affaticato dal duro lavoro. Si
spoglia per fare il bagno nella tinozza. Il figlio, presente, guarda
ammirato questo corpo forte, muscoloso, sporco della fatica del lavoro. È
a questo punto che la madre si rivolge al figlio dicendogli: “guarda tuo
padre, guarda come è sporco... tu non diventerai mai come lui, tu farai un
lavoro pulito, farai l’impiegato...”. Anche così, svalutando il corpo
maschile e il tipo di lavoro, appunto manuale, che ha trasformato quel
corpo, si è proceduto a liquidare il padre.
Il processo di secolarizzazione dà quindi il via alla marginalizzazione
della figura paterna; l’affermarsi della società dei consumi,
completamente centrata sul soddisfacimento di bisogni, peraltro spesso
artificialmente creati, prosegue l’opera. Nuove ideologie, pur partite da
esigenze ed istanze più che legittime, ma di cui è ormai evidente
l’effetto distruttivo sulla famiglia e sul padre, supportate in ciò da una
legislazione ottusa ed a senso unico, stanno completando l’opera. Pensiamo
alle varie legislazioni sul divorzio che, nate per risolvere situazioni
insostenibili, sono state applicate per interessi corporativi ed economici
in autentiche, lucrose fabbriche di infelicità, lavorando sistematicamente
contro i padri (e in realtà anche contro le donne), togliendo loro la
possibilità di mantenere un proficuo rapporto psichico e materiale,
concreto, quotidiano con i figli. Pensiamo poi alle varie legislazioni
sull’aborto. In nome dell’autoderminazione della donna si si è proceduto
ad escludere il padre da ogni decisione in merito al processo riproduttivo
umano. In Italia la legge 194/98 che ha introdotto l’aborto consente che
il padre legittimo, di una coppia regolarmente sposata, possa non essere
neppure informato della decisione della moglie di abortire il figlio che
ha contribuito a concepire. E quale autoritevolezza e importanza potrà mai
avere sui figli, nella società, un padre cui è stata tolta la parola
addirittura su questo aspetto cruciale del prorio destino umano?
La funzione del padre
Padre e madre: figure entrambe essenziali ma non intercambiabili. Essi
svolgono verso i figli compiti e funzioni, materiali, simboliche e
psichiche distinte, e che vanno preservate. Tutta la psicologia ci ha
insegnato che nei primi tre anni di vita del figlio, esso vive in una
situazione quasi simbiotica con la madre; ha bisogno di lei, non può farne
a meno per il suo sano sviluppo futuro, fisico ma, soprattutto,
psicologico. È la madre che lo porta in grembo, che lo partorisce, lo
allatta, lo accoglie e lo cura insegnandogli una cosa fondamentale:
l’amore che anch’egli in futuro, avendone vissuto l’importanza, saprà
donare accogliendo a sua volta la vita.
Il padre in questa prima fase non è particolarmente importante, pur
svolgendo una serie di funzioni di sostegno, sulle quali qui non mi
soffermerò in questa sede. Il padre diventa indispensabile nel momento in
cui si rende necessario interrompere la fusione tra madre e figlio (o
figlia), per iniziarli – in maniera differente - al mondo ed alla vita
sociale. In tal senso possiamo dire che il padre è il portatore della
prima ferita, di quel taglio certo doloroso ma indispensabile alla
crescita dei figli ed al loro inserimento nella comunità degli uomini. È
questo il suo ruolo essenziale, che la madre non può svolgere, e che è al
contempo una funzione simbolica e concreta che tutte le società fin dalle
epoche remote hanno previsto elaborando complessi riti iniziatici, nei
quali una ferita, lieve ma fisica (la rottura di un dente, un’incisione
della pelle ecc.) sempre viene inflitta, affinché si sviluppi la capacità
di sopportare le future ferite – non solo e non tanto fisiche - che di
certo la vita infliggerà.
La capacità di dire NO, di stabilire e far rispettare delle regole –
giuste per sé e per gli altri - di lasciare che il figlio cresca, cerchi
la sua strada e, trovatala, abbandoni la casa famigliare per seguirla,
anche quando questa strada sia molto diversa da quella per lui immaginata
dai genitori. E, certo, anche la capacità di riaccoglierlo se, come a
volte nella vita capita, il figlio – dopo aver sbagliato –decide di
riconciliarsi con la famiglia che ha lasciato, come mirabilmente racconta
la parabola del figliol prodigo.
Le conseguenze dell’assenza paterna
Oggi ci stiamo accorgendo che la teorizzata società senza padre
esiste veramente e non è quel paradiso senza violenza e di pace che si era
sperato. L’aumento delle separazioni e dei divorzi, l’affermarsi di una
cultura fortemente antipaterna, lo sviluppo di tecniche di ingegneria
genetica che tendono ad escludere il padre dallo stesso processo
riproduttivo (o comunque di permettere la generazione umana al di fuori di
una relazione fisica ed emozionale), stanno favorendo l’emergere di un
sempre più numeroso esercito di giovani che crescono con una relazione
estremamente labile con il padre e che, come dicevamo, vengono iniziati
alla vita sociale dalla madre o da altre figure femminili/istituzionali.
Ma anche la madre più attenta e consapevole dell'importanza della
complementarità dei ruoli genitoriali nella costruzione della identità,
nulla potrà fare in merito alla trasmissione del patrimonio istintuale,
della cultura materiale e simbolica propria del maschile, per il semplice
motivo di non possederli. Tale fatto determina una fragilizzazione
dell'identità maschile che ha come effetto non solo la produzione di
infelicità sicure (anche per le donne), ma anche tremende patologie
sociali.
L’assenza del padre è fonte di patologie e disagi sociali gravissimi.
Purtroppo da noi – e credo anche in Brasile – mancano statistiche che
correlino l’assenza del padre e il manifestarsi di fenomeni di devianza e
degrado sociale.
Negli Stati uniti, al contrario, questo fenomeno è allo studio da decenni.
Negli Stati Uniti esiste un termine per rappresentare la situazione di
tali figli privati della figura paterna: Fatherless, "senza padre"
appunto.
In America il problema è ormai diventato esplosivo. Già nell'ottobre 1995,
l’allora presidente Bill Clinton, parlando all'università del Texas sulla
questione razziale, alla fine del suo discorso affermò: "Il maggior
problema sociale nella nostra società può essere considerato l'aumento
dell'assenza dei padri dalle case dei loro figli, perché ciò si ripercuote
su moltissimi altri problemi sociali".
Attualmente circa il 50% dei bambini americani non vive con il padre
biologico. Fonti ufficiali americane ci dicono che le conseguenze di
questa separazione sono drammatiche:
· il 63% di giovani suicidi proviene da case senza padre (U.S. D.H.H.S.,
Bureau of the Census);
· il 90% di tutti i bambini di strada (stiamo parlando degli Stai Uniti,
non del Brasile) proviene da case senza padre;
· l'85% di tutti i bambini che esibiscono disordini del comportamento
provengono da case senza padre (Center for Diseases Control);
· l'80% dei violentatori provengono da famiglie senza padre (Criminal
Justice and Behavior, Vol. 14, p. 403-26, 1978!!);
· il 71% degli abbandoni scolastici provengono da case senza padre (National
Principals Association Report on the State of High Schools);
· il 75% di tutti gli adolescenti assistiti nei centri antidroga (chemical
abuse centers) provengono da case senza padre (Rainbows for all God's
Children);
· l'80% di giovani nei riformatori proviene da case senza padre (U.S. Dept.
of Justice, Special Report, Sept. 1988);
· l'85% di tutti i giovani detenuti nelle prigioni è cresciuto in case
senza padre (Fulton Co. jail population, Texas Dept. of Corrections 1992).
· il 69% dei bambini vittime di abusi sessuali vivono in case dove il
padre non c’è.
In un suo scritto, Armando Ermini - un caro amico che da anni si occupa
come me della questione - afferma: “L’incapacità di sopportare la perdita
o la negazione, l’incapacità alla rinuncia consapevole in vista di
progetti di più ampio respiro (in favore della soddisfazione istantanea
del bisogno, da perseguire a qualsiasi costo), la difficoltà a rapportarsi
colla norma, l’oscillazione fra sottomissione incondizionata ed esplosione
incontrollata di violenza ed aggressività, anche contro se stessi, sono
tutti sintomi patologici di una persona cui è mancata la presenza e la
guida, affettuosa e severa, del padre. Più in generale, anche quando le
patologie non sfociano in fatti di interesse penale, possiamo osservare
una perdita complessiva di vitalità adulta, del gusto per l’autonomia e
per la sfida, che si manifesta, ad esempio, nel rimanere più a lungo
possibile nella casa genitoriale, o in un preoccupante aumento della
sterilità, per cui quasi il 40% dei maschi bianchi occidentali è incapace
di fecondare”
(fonte: Archivio del sito dei Maschi Selvatici
http://www.archiviomaschiselvatici.com/padre/conferenza.htm).
Invertire la tendenza: far tornare il padre
Credo che le riflessioni ed i dati sopra esposti siano sufficienti per
affermare con forza la necessità di una inversione di tendenza: è
necessario il ritorno del padre. Tale inversione dovrà certo riflettersi
in una presa di coscienza dell’importanza sociale della paternità ed in
una legislazione che valorizzi la figura paterna invece di favorirne la
liquidazione. Ma ancora prima sarà necessaria una nuova consapevolezza dei
padri stessi, una loro maggior partecipazione nella crescita dei figli
nella famiglia e nella società. Non si tratta, si badi di bene, di un
diritto da rivendicare, ma di un dovere da adempiere, perché da quell’adempimento
dipenderà la felicità delle generazioni future.
Vecchie immagini per un nuovo padre
Molte sono le figure che la tradizione ci offre della funzione
dell’immagine paterna e che ancora possono essere utilizzate come
rappresentazione simbolica dei compiti che il “nuovo padre” nella famiglia
che cambia può e deve svolgere.. Voglio rammentarne un paio.
La prima riporta direttamente al gesto di Ettore, raccontato nel poema
epico dell’Iliade di Omero; quel gesto che tanti padri hanno, forse
inconsapevolmente ma per ciò ancor più significativamente, compiuto per
migliaia di anni. Lo slancio del figlio verso l’alto.... E’ un gesto che
un’altra volta ci dice come l’accoglienza materna e paterna, entrambe
indispensabili, siano tuttavia differenti.
La madre accoglie il figlio in seno, lo abbraccia, lo stringe a sé... con
amore lo protegge.
Il padre prende il figlio sotto le ascelle, lo solleva e lo slancia verso
l’alto, verso il cielo. E’ questo un gesto prettamente maschile che
rappresenta forse l’essenza della paternità. Come dice ancora Armando
Ermini: “Una linea verticale dalla terra al cielo, che tuttavia non si
interrompe, a simboleggiare l’unione fra materia e spirito”.
Più ancora mi è cara la rappresentazione maschile di un Santo della
tradizione cattolica che, pur non più riconosciuto dalla chiesa, è
rappresentato, pregato e venerato in Europa ed anche in Brasile. Ho a casa
una piccola collezione di statuette raccolte qui e in varie parti del
mondo.
Si tratta di San Cristoforo, del quale conoscete bene la leggenda.
Cristoforo è un giovane che, pentitosi della propria vita, diciamo così,
non proprio esemplare, decide di porsi al servizio degli altri, aiutandoli
ad attraversare un fiume tumultuoso.
Un giorno si presenta a lui un bambinetto che gli chiede di essere portato
verso l’altra sponda. Il buon Cristoforo se lo carica sulle spalle,
leggero com’é, ed inizia ad attraversare il fiume. Mano a mano che avanza
il bambino si fa sempre più pesante, al punto che Cristoforo pensa di non
farcela e di annegare. Con grandi sforzi arriva alla riva e deposto il
bambino per terra gli dice: “Accidenti ragazzino, man mano che proseguivo
diventavi sempre più pesante. Mi è sembrato, ad un certo punto, di portare
sulle spalle il peso del mondo”. Al che il bambino, che era il Cristo,
risponde: “In realtà tu hai portato sulle spalle il peso del mondo”.
Cristoforo si fa carico di portare il bambino da una riva all’altra, da
una vita all’altra. Se ne assume la responsabilità, rischia di perdere la
vita per questo e, così facendo, scopre la sacralità di ogni bambino e di
ogni vita, la sacralità di questo passaggio dalla vita infantile alla vita
adulta ed, in definitiva, la sacralità della propria missione di uomo.
Ecco: su questa immagine, che richiama fortemente un’altra essenziale
funzione che io vedo come necessaria nei padri di oggi, ovvero quella di
essere capaci di una paternità sociale verso bambini e bambine prive – per
diversi motivi – del proprio padre, su questa immagine, dicevo, mi piace
concludere il mio intervento, ringraziando tutti per l’attenzione.
Eugenio Pelizzari, Minas Novas, 19 agosto de 2006
[12 settembre 2005] torna all'indice |